terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nostalgésico

O menino parecia um pouco triste, quando a vaca aproximou-se para conversar...

 - Olá amigo meu, sobre o que tu estás a pensar?
- Olá amiga minha, só estava aqui me lembrando de algumas coisas...
- Eu poderia saber que coisas são?
- É claro que podes... Eu pensava sobre as coisas que fazia quando eu ainda era apenas uma criança.

Neste momento, a vaca fez uma pausa para reflexão. Afinal, não era exatamente um adulto que conversava com ela.

- Estou curiosa, prossiga!
- Eu me lembrava da época em que nos reuníamos e colhíamos o milho e tirávamos o leite das vacas!
- Desta última eu me lembro muito bem..., disse a vaca com um pouco de ironia.
- Eu e meus irmãos encontrávamos nosso pai no campo. Quando chegávamos lá, ajudávamos a cortar e a carregar as espigas na carroça.
- E isto era muito especial para ti?
- Era mesmo, tu não imaginas como...
- E por que era tão especial?
- Porque naquela época, nós brincávamos e conversávamos enquanto debulhávamos as espigas. O trabalho era muito divertido. Quando os vizinhos vinham ajudar, a festa era ainda mais bonita.
- Eu tive a impressão de que isto te deixa um pouco triste.
- Eu fico um pouco triste porque hoje nós não fazemos mais assim.
- Não? Eu poderia saber o porquê?
- Não faz muito tempo, meu pai e meus tios compraram uns tratores. Agora, com a chegada da colheita, nós ficamos aqui e eles se vão, fazendo todo o serviço.
- Entendo...
- E antes, pelas manhãs, tirávamos nós mesmos o leite das suas amigas.
- Entendo mais ainda...
- Agora, eles tiram o leite com mangueirinhas.
- E por este motivo nós perdemos nossa seção matinal de massagem abdominal há algum tempo, emendou a vaca.
- Viu? É por isto que me sinto um pouco triste.
- Eu compreendo teu sentimento. Isto não passa de pura nostalgia.
- “Nós”, o quê?
- Eu disse, N O S T A L G I A!
- Sempre me aborreço com tuas palavras difíceis...
- Calma, menino, que eu te explicarei. Ouça-me: nostalgia é como chamamos uma lembrança que nos transporta ao passado, a pretexto de nos fazer recordar coisas boas.
- E por que será que isto acontece?
- Eu acho que algo adoece teu coração... E tu descobriste que certas doses de nostalgia diminuem tua dor.
- Verdade... Eu acho que eu estou com isto mesmo. E por que será que as coisas do passado eram melhores que as coisas de hoje?

Quando o menino falou isto, a vaca o repreendeu:

- Não digas assim menino!
- Que foi que eu fiz?
- Tu acabas de tomar uma perigosa colherada de um veneno mortaaaaaaaaal!
- Como assim? Eu não tomei nada!

E o menino começou a imaginar que a vaca já se encontrava um pouco lelé da cuca, como se costuma dizer por ai. Então, ela retrucou:

- Tu não entendes a tua tristeza?
- Acho que não entendo mais nada.
- Amigo meu! Nunca digas: por que foram os dias passados melhores do que estes?
- Por quê?
- Porque não provém da sabedoria esta pergunta!
- Por quê?
- Porque a nostalgia age como veneno no teu coração. Ela paralisa teus olhos e tu não vês o que há de bom na vida ao derredor.
- Não posso ter nostalgia?
- Podes sim!
- Então não entendo.
- Veja... A nostalgia serve para que tu sejas grato pelo dia de ontem, e não, ingrato pelo dia de hoje!

O menino percebeu que perdia sua vida. As palavras de sua amiga vaca foram como que um antídoto, que curou sua mente e seu coração...

Inspirado no texto de Eclesiastes 7:10

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terça-feira, 5 de junho de 2012

Sabedoricidas

Conta-nos a Bíblia, Salomão tornou-se tão sábio, que sua fama se estendeu além dos limites de sua nação.

Durante seu reinado, Salomão dedicou-se a escrever muitas de suas percepções acerca da Sabedoria. Um dos seus ensinos mais profundos resume-se em: não há sabedoria na incapacidade de raciocínio.

Bem, é claro que isto parece óbvio. Contudo, o óbvio e o trivial são inúmeras vezes menosprezados, exatamente por serem como são.

Salomão percebeu que, a Sabedoria, apesar de ser preexistente, independente e dotada de personalidade, manifestava-se em sua vida por meio de seu intelecto e raciocínio. Seus pensamentos o levariam a refletir acerca de suas percepções que, posteriormente, o levaria às ações sábias.

Baseado neste aprendizado, Salomão aconselha a manter a mente equilibrada e fugir de tudo o que possa entorpecê-la.

Não é por mero acaso que um dos seus temas preferidos é o vinho: “O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio” Provérbios 20:1.

Em outro provérbio, ele aconselha: “Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes o desejar bebida forte...” Provérbios 31:4.

O efeito do álcool sobre o cérebro humano é devastador. Sob a sua ação, muitos destroem e são destruídos. Não há clareza, não há limites, não há ponderação.

Contudo, não somente o vinho, segundo Salomão, é capaz de nos paralisar o raciocínio. Há algo tão perigoso quanto: a sedução.

Seus conselhos são clamores para que o homem se desvie e evite a exposição. Os hormônios sexuais, quando atingem determinada concentração, dominam-nos como o próprio vinho.

Como evitá-los? Bem, conhecedor da natureza humana, o rei nos alerta: “Porque os lábios da mulher estranha destilam favos de mel, e o seu paladar é mais suave do que o azeite” Provérbios 5:3.

E se este é um perigo tão gostoso e tão agradável, a melhor forma de proteção é exatamente como orienta: “Não se desvie para os caminhos dela o teu coração, e não te deixes perder nas suas veredas” Provérbios 7:25. Em outras palavras: fuja!

Por fim, existe ainda mais um entorpecente do qual devemos guardar nossas mentes. Ele se chama, ira.

Quando nos iramos, somos incapazes de raciocinar com clareza. Porventura, não se diz do colérico: “Perdeu a cabeça”?

A cólera faz-nos perder o juízo e o bom senso. È exatamente como se estivéssemos sob o efeito do vinho ou nas mãos da mulher sedutora. E é obvio que tomaremos decisões que nos levarão na direção errada.

Quando a ira toma conta do homem, ele corre o sério risco de abraçar o prejuízo. É por isto que devemos fugir dela. Acerca da ira, Salomão escreveu: “O homem de grande indignação deve sofrer o dano...” Provérbios 19:19. Ou ainda: “O que se indigna à toa fará doidices...” Provérbios 14:17.

Para o rei, este é um problema tão sério, que não basta não se irar, mas também, evitar os que se iram: “Não sejas companheiro do homem briguento nem andes com o colérico” Provérbios 22:24.

Pelo contrário, há benefícios para os que não se deixam embriagar dela: “A prudência do homem faz reter a sua ira, e é glória sua o passar por cima da transgressão” Provérbios 19:11.

E também: “Melhor é o que tarda em irar-se do que o poderoso, e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade” Provérbios 16:32.

A ira e a Sabedoria são como água e óleo: “Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos” Eclesiastes 7:9.

Cuidado para não se envenenar contra a Sabedoria!

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quarta-feira, 21 de março de 2012

Vacina da alma

É de difícil explicação, senão mesmo, impossível.

A alma geme e, não raro, o indivíduo não entende o que nela passa. Existe sim uma ferida que não aceita um curativo ou uma bandagem. Não há como submetê-la a uma cirurgia. Não há como tocá-la com as mãos. A dor está lá, mas ninguém a vê. A dor presente somente a sente quem a suporta. Aos outros, aquilo é incompreensível.

O que se espera ao olhar-se no espelho? É óbvio que ver o próprio rosto. Contudo, o que acontece se, ao encará-lo, não se vê a própria face? A primeira reação, indubitavelmente, seria uma súbita surpresa.

É impossível olhar o espelho e não se surpreender com a própria ausência. Assim, afirmo que somos incapazes de evitar algumas feridas. Tal qual a surpresa do espelho que não reflete o que nos parecia trivial.

Um bebê não se surpreende se seu rosto não reflete. Se eu fosse criança, este seria um problema que eu jamais sofreria e, sobre o qual eu jamais escreveria.

Logo, quando uma criança cresce e alcança alguns saberes na vida, saberá o que se espera ao usar um espelho. Eu acho que cresci. Então, as diferentes expectativas são sinais do que nos tornamos.

Um dia, eu olhei um espelho e não vi meu rosto. Assustei-me. Marcou-me profundamente até os rincões da alma.

Esta triste experiência desencadeou diversas reações. Uma delas, o temor ao me aproximar do espelho: e se meu rosto não estiver lá novamente? Isto me provocava medo e pânico. Com o passar do tempo, resolvi que os deixaria de lado. Passei a evitá-los. Não me submeteria mais uma vez a dura emoção que outrora sofri.

Isto é algo que não se pode explicar. Como fazer-me entender? Desenvolvera uma fobia por espelhos que um dia não refletiram um rosto? Que loucura seria esta?

Sim, loucura para os demais, porém, eu sabia que era real. Eu mesmo testemunhara. Logo, ninguém me entenderia.

Contudo, por mais que eu tentasse transparecer que nada havia de errado, percebiam que algo comigo não ia muito bem. Pois, era impossível que compreendessem o incompreensível. Os espelhos me rodeavam por todos os lados, amedrontando-me. Tinha vontade de fugir e, fugi, inúmeras vezes.

Em algumas ocasiões, na tentativa de enfrentar o absurdo, arriscava olhá-lo e, era sufocado pela lembrança do horror. Fui julgado e muito mal compreendido. Com razão.

Quando já não sabia o que fazer, quando já cansado de me esconder, algo esclareceu meu coração.

Involuntariamente, passei diante do mesmo espelho e fitei-o. Revivi a experiência, só que agora, pude analisá-la.

Por que não vi nada? Foi naquele instante que compreendi algo que curou-me a alma.

Em nenhum momento ele quis esconder-se de mim mesmo. Então, por que não o vi? Simplesmente porque o espelho estava embaçado e eu nunca percebera aquilo. Apenas isto.

Jamais me surpreenderei novamente. Agora sei que verdadeiramente o espelho reflete. E, mesmo que não reflita, será esta uma emoção nova para mim? Escrito por Cléber C. FERNANDES

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Digital Eterna

Um pouco mais de filosofia. Novamente, penso em assuntos da existência...

Tu, não és tu verdadeiramente. Um dia verei quem realmente sou. Acordarei deste sonho e verei o real. A Bíblia afirma que, no evento da morte, o espírito volta a Deus; enquanto o corpo, ao pó. Ela não afirma que, o espírito dos bons voltam a Ele e que o dos maus não. Todos voltam à única Fonte. O verdadeiro eu é somente aquilo que a Deus volta, enquanto, o resto, são como pinceladas numa tela, numa folha de papel em branco que um dia despertou neste mundo.

Nós tivemos uma chance. De repente, nosso verdadeiro eu é envolvido por uma personalidade vivente e habitamos um corpo. Em outras palavras, uma essência coberta por uma casca física e psíquica.

Em outra ocasião, escrevi sobre o sentido do nascer. Relacionando o tema com a salvação do homem, conquistada por Jesus, perguntava-me: como poderia Deus, permitir um nascimento que um dia será lançado no inferno e sofrerá eternamente? Não seria melhor que o tivesse poupado? Naquela ocasião, conclui que poupá-lo seria mais cruel que o risco que se corre.

Partindo deste ponto de vista, a alma, seria viável a ideia de aniquilá-la ou separá-la eternamente. O verdadeiro “eu”, o espírito, se conservaria para sempre. Seria como manter o DNA, mesmo depois que o corpo não mais existisse e a alma, a vontade, a mente e emoções fossem apagadas.

Se este eu, esta essência, tivesse uma segunda chance, certamente, teria outra alma. Eis o porquê não ocorre. E a anterior? Perdeu-se completamente, como se nunca houvesse sido escrita. Por quê? Bem, as percepções, experiências e decisões (pessoais e sofridas), traçariam novas marcas, mesmo se tratando da mesma essência. E mesmo que a essência tenha o poder de gerar e promover traços semelhantes aos do eu que um dia foi, reviveria histórias distintas. Por isto, ela não seria reconhecida. O eu, a essência, é uma impressão digital espiritual (portanto única), eterna, que gera um registro vivente, uma alma também única.

Contudo, o mais interessante mesmo, é a ideia de que a alma pode ser conservada. Afinal, cada registro, cada alma, traz uma riquíssima soma de tudo o que se viveu e sentiu na terra. É uma jóia, um tesouro maravilhoso do qual jamais se poderia obter outro igual.

Vejo uma escultura feita na areia do mar. A mais bela, a mais perfeita. É uma pena que quando a maré subir, aquela obra de arte seja completamente apagada pelas ondas. É isto o que aconteceria com a alma de quem parte? Quão maravilhoso seria poupá-la!

Basta um coração de historiador para compreender esta dor. Qual deles não se comove com a destruição da Biblioteca de Alexandria? E todos nós somos como uma biblioteca.

Imaginemos Leonardo da Vinci, após concluir a Monalisa. Caso lhe fosse proposto lançá-la ao lixo, aceitaria? Entendo que, mesmo que ele lançasse, por um motivo ou outro, estaria convicto de que nunca conseguiria outra como aquela. Pintaria uma cópia registrada em sua mente e, de seu ponto de vista estético ou de outrem, melhor ou pior. Contudo, a primeira nunca se repetiria. É por isto que cada registro é tão precioso, afinal, sua unicidade o torna exclusivo e uma jóia rara no universo.

Não seria uma pena que tantos belos registros fossem simplesmente apagados? É em nossa alma, onde estão guardados os sentimentos, as lembranças, a dor, a beleza, a música, a poesia, a alegria... Toda esta soma faz o que pensamos sermos nós. Mas, eu seria somente minha alma? Obviamente, queremos salvar o nosso eu, pois, parece-nos injusta e absurda a ideia de que, um dia, desapareceremos como se nunca tivéssemos existido. Por algum motivo isto é assim. Queremos permanecer.

Uma folha de árvore também é única. Suas ranhuras são impressões que nunca se repetirão. No entanto, ela passará. Seu registro físico foi apagado para sempre, mesmo que, nunca um de nós tenha se dado conta. Ela estará gravada somente na mente de Deus. Nossa consciência não intervém neste processo. Será que há falta de amor nisto, de que ela se perca?

Agora, se o destino de minha alma é como o desta folha, cremos que seria cruel, apagá-la ou lançá-la ao fogo. Em algum lugar, precisamos crer que a folha que tanto amamos, esteja bem, esteja feliz. E que nós mesmos igualmente quando partirmos. Alguns desejam ardentemente que elas retornem melhores do que foram. E até mesmo, defendem que é exatamente por isto que ela passou por aqui. Desejamos o que amamos. Não queremos nos separar do nosso amor.

Mas, porque, normalmente, não amamos uma folhinha de árvore, não nos importamos se tantas a cada instante, em todas as eras, tenham passado por aqui ou continuem a partir sem que alguém se importe com isto.

Creio que Jesus entendeu quão precioso é este tesouro. Sua obra de remissão e salvação prevê conservar todos os preciosos registros que se possa. Contudo, haverá dos que serão verdadeiramente apagados para sempre. Crueldade? Falha da essência? Não, apenas questão de escolha de uma vontade que não se rende. E nisto, justifica-se o porquê da permissão de um nascimento, cuja alma será perdida. Ele acabará com as histórias mal escritas.

Os gritos de nossa consciência são clamores de nossa essência que apelam à própria alma. A essência sente o maravilhoso e sem igual projeto para o qual foi convocada.

Se o espírito volta ao Senhor que o deu, algo será preservado. Por isto, creio que não somos o que verdadeiramente parecemos ou pensamos ser. Eis ai um aspecto de sua misericórdia.

A sua verdadeira essência, sua digital eterna, voltará a Deus. Destas, haverá das que nunca mais interagirão com um mundo, exatamente como aqueles que ainda não nasceram. Permanecerão guardadas como um dia foi. A história foi apagada, a pintura lançada ao fogo, sua marca foi desfeita. Sua alma não foi digna de continuar, pois, obstinada, rejeitou o amor de seu Criador, d’Aquele que o amou primeiro.

Então, somos obrigados a amá-Lo? É claro que não. Somente somos advertidos de que, o mal cessará. E se sofremos, é uma prova de que nenhum de nós deseja que este mal permaneça. Queremos ser livres. Não há outra forma de alcançar liberdade, se não for através do seu Filho, chamado, Autor da vida. Exatamente porque não existem dois salvadores, um para as que escolhem a luz, outro, para as que escolhem as trevas. Ele nos deu uma chance de vivermos, interagirmos, pisarmos aqui. Ele nos dá uma chance de permanecermos.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quebra-cabeça

Existem assuntos sobre os quais há muito tempo medito. Um deles, a minha vocação.

Um balanço destes anos, envolvido em Sua obra, fazem-me continuamente refletir: por que faço o que faço?

Admiro aqueles que, segundo minha observação, demonstram firme convicção de seus papéis e suas obras. Confesso que até mesmo hoje, sinto como um vazio em meu discurso. É como se eu ainda buscasse crer naquilo que faço, ou acreditar naquilo que devo fazer.

No que se refere a assuntos de salvação, creio compreendê-los. É verdade que senti genuína vontade de compartilhá-la. Diante do sofrimento humano, também senti genuína compaixão e o desejo de preencher as lacunas do que carece o mundo.

Como disse, sempre que me deparo diante de alguém que parece convicto daquilo que anuncia, admiro-o. Compreendo que tal pessoa entendeu algo que eu mesmo ainda não.
Diante desta situação, comecei a clamar por entendimento e, minhas palavras foram: “Faz-me entender aquilo que ainda não entendi”.

Com o passar do tempo, percebia que algo mudava na maneira como enxergava algo. Repentinamente, alguma coisa fazia real sentido para mim. Minha defesa já não era da boca para fora, no entanto, tratava-se daquilo que verdadeiramente cria e ardia em meu coração. A consequência imediata disto foi a necessidade de compartilhar. Daquele momento em diante, todos os meus pensamentos e ações passariam pelo clivo desta nova maneira de pensar.

Na caminhada também compreendi, não preciso buscar o mesmo entendimento que vejo em outrem. Isto porque tenho uma obra e uma função no corpo, diferente das de outros. Os assuntos os quais se me esclarecem ao coração não precisam ser necessariamente idênticos aos do meu irmão, mas, na medida necessária para a obra que compete a mim. Eis porque alguns vão aos judeus, outros, aos gentios.

Um dos exemplos mais marcantes desta mudança foi a compreensão de como realmente faria diferença no mundo. A busca do poder, antes almejado, como instrumento de promoção das transformações que julgava necessárias, pareceu-me na verdade, mais uma intenção velada de um coração corrupto e enganoso que buscava alguma notoriedade. A verdadeira mudança que eu desejava precisava primeiramente acontecer em mim.

Neste processo, entendi o que o apóstolo Paulo ensinou em trechos de suas cartas. Ele falava sobre dons, poderes, negações de si mesmo e coisas extraordinárias. Depois de citá-las, explicá-las e até mesmo, incentivar os cristãos a buscá-las, ele afirma: agora, mostrarei um caminho ainda mais excelente... o caminho do amor.

Depois daquele dia, percebi que nada é superior ao amor. Nada que pudesse fazer ou obter seria superior ao amor que pudesse sentir e demonstrar. Eis aqui um dos entendimentos que mudaram a maneira como passei a exercer meu papel.

Contudo, confesso, ainda não obtive todo entendimento que almejo. Ainda há um vazio que percebo no meu espírito, na consciência, acerca da minha vocação. Nem sempre estou convicto daquilo que gostaria. Muito do que peço não sinto ardendo dentro de mim. Tenho o discurso, mas não tenho o entendimento. É isto que chamo de vazio. Eu preciso preenchê-lo.

Quando aprendi acerca do amor, tornei-me liberto de mim mesmo. Tornei-me liberto de minhas ambições pessoais. Tornei-me liberto quanto ao resultado de meu próprio desempenho. Entendi que nada faria sentido, por mais extraordinário que isto parecesse, se não amasse.

Com isto, não quero dizer que nada mais importa. É claro que importa. Importa impor as mãos, importa ser canal do Seu poder. Contudo, o amor é combustível que mantém a chama acesa e o filtro pelo qual passam todas as minhas intenções e ambições.

Nestes últimos dias, voltei a sentir a necessidade de buscar o sentido da minha vocação. Voltei-me à Palavra. Senti que Ele falou comigo.

Invadiu-me a ânsia de conhecer, de saber o que faço. Atualmente, dedico-me ao pastoreio, e amo fazê-lo, mas, até mesmo ele, vez ou outra, parece-me um pouco vazio. É como se, de vez em quando, não entendesse o que faço. E, se porventura, tento defender sua importância, sinto-me pouco sincero.

Nesta busca, ouvi o que Ele diz através do Seu servo Paulo: que existe daquilo que conhecemos em parte, enquanto a outra parte, cabe-nos profetizar. Foi então que, ouvi do Espírito a direção: profetiza, pois, esta é a parte desconhecida ao homem. E é assim mesmo, pois, se soubesse tudo, não O buscaria.

A angústia que sinto é como daquele que anseia enxergar o objeto, mas somente vê a sua sombra. Ainda está escondido de mim. Contudo, conclui que não devo preocupar-me. A medida que possuo agora, mesmo que deseje mais, é a porção justa. E enquanto isto, seguir ouvindo e caminhando. Ouvir e caminhar até o momento em que enxergue verdadeiramente o que desejei ver. E neste caminhar, é inegociável que ame de todo coração, não se importando demasiadamente se ainda não tenho todas as respostas.

A vida não faz sentido se não for a manifestação da vontade de Deus. Esta conclusão foi para mim um marco, uma vez que, sempre temi render-me. Deixei de temer quando O conheci como a própria Sabedoria que tanto desejo e procuro. Descobri que de mim mesmo não tenho nada a oferecer. Descobri que meus pensamentos e interesses são tão insignificantes que não valem a pena. Quem mais conhece todas as coisas? Depois deste dia, um simples pedido faz-me refletir se porventura é um reflexo do Seu coração. “Seja feita a Tua vontade”, não me assusta tanto quanto antes. Porém, aqui confesso que ainda há um resquício deste temor, apesar do avanço. Falta-me render-me um pouco mais.

Maravilhoso foi descobrir o significado de sua Santidade. Ao contrário de mim, Ele seria incapaz de me envolver em planos, cujos propósitos fossem-me mascarados deliberadamente por falsas impressões. Ele não trabalha com segundas intenções. Ele é puro e sincero. Não há como desconfiar de Sua fidelidade.

O modo como alguns são chamados me fascina. A Moisés foi dito: tira meu povo do Egito. A Paulo foi dito: te pus como luz aos gentios. A Abraão foi dito: sai da tua terra. A Pedro foi dito: apascenta minhas ovelhas. E quanto a mim, seria isto que me falta?

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Lágrimas à grega

As Escrituras Sagradas descrevem duas ocasiões em que Jesus chorou. Na primeira delas, Jesus chora diante do túmulo do amigo Lázaro (João 11:35).

A palavra “chorou” neste trecho, é a palavra grega edakrusen, derivada da palavra δακρύω (Dakruo, ver Strong #1145). Dakruo faz referência preferencialmente a um choro silencioso, um discreto verter de lágrimas. Esta é a única ocasião em que esta palavra aparece em todo Novo Testamento.

Em contrapartida, a palavra κλαίω (Klaio, ver Strong #2799), denota lamentar-se alto, gemer e soluçar, ou seja, um choro extravagante. Entretanto, mesmo o verter discreto das suas lágrimas chamou atenção, como se vê no verso 36: “Disseram, pois, os judeus: Vede como o amava”. Jesus não escondeu seu choro, e este sinal motivou tal reconhecimento da parte dos judeus.

É interessante notar que, nos versos 31 e 33, as palavras klause, klaiousan e klaiontas (derivadas de klaio), descrevem o choro de Maria irmã de Lázaro e, alguns judeus que a acompanhavam. Isto quer dizer que, enquanto estes choravam desesperados a morte de Lázaro, Jesus chorava sereno.

Contudo, há um momento em que Jesus também chorou de forma extravagante. Em Lucas, capítulo 19, verso 41, está escrito: “E quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela...”. A palavra choro, no grego, é eklausen.

Acerca do porquê Jesus chorou, imagina-se, inicialmente, que fora pelo sentimento provocado pela morte do amigo. Vale a pena observar, contudo, que esta foi uma sugestão dos judeus que o viram chorar.

Jesus agitou-se e perturbou-se diante do sofrimento das irmãs de Lázaro e demais presentes (verso 33). Porém, não chorou quando soube que Lázaro morrera. Pelo contrário, o verso 15, afirma que Jesus sentia-se bem, mesmo diante do conhecimento da morte. Então, por que chorou?

Creio que a chave encontra-se no verso 38. Nele, João descreve o lugar onde sepultaram o corpo de Lázaro: “era uma gruta, e tinha uma pedra posta sobre ela”. Porventura, não remeteria esta imagem ao próprio local onde sepultaram Jesus? Entendo que João também tivera esta percepção, uma vez que narrou estes fatos após a morte e ressurreição do Senhor.

Jesus chorou somente diante do túmulo. Ele observou a caverna e a pedra que tapava a entrada. Que passou em seus pensamentos? Talvez, a cena de sua própria condição dentro em breve. Assim, Jesus chorou.

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Irão realmente os tímidos para o inferno?

Foram muitas as ocasiões que sentado em frente a um pregador da Palavra de Deus, ou até mesmo, da boca de outros irmãos, ouvi afirmações tais como: "Os tímidos não herdarão o reino dos céus" ou, "Deixe sua timidez de lado. Fale de Cristo, pois, os tímidos não herdarão o reino dos céus", ou ainda, "Cante, dance, deixe a liberdade do Espírito tomar conta de você e não seja tímido, pois os tímidos não herdarão o reino dos céus..."

Para uma pessoa tímida, o que seria mais amedrontador? Todas as vezes em que fora empregada, o apelo trazia explícito a condenação da inibição.

Após algum tempo de estudos, análises e meditação, resolvi escrever este pequeno artigo, para que, de acordo com o entendimento que adquiri, esclareça a quem se refere o Autor do texto Sagrado.

Bem, para iniciarmos, não existe nenhum texto bíblico que afirme que os tímidos não herdarão o reino dos Céus. Existe, porém, neste contexto, a expressão “herdar o reino de Deus”, aliás, muito utilizada pelo Apóstolo São Paulo. Numa de suas cartas, ele nomeia algumas classes de pecadores que não herdariam o reino de Deus, tais como, idólatras, adúlteros, homossexuais, ladrões, entre outros (I Coríntios 6:10). Encontramos também algo semelhante em Efésios 5:5.

Em outro texto, no livro de Apocalipse, São João descreve uma lista semelhante à de São Paulo, onde, os tímidos são elencados como aqueles que sofrerão a segunda morte, lançados no lago de fogo e enxofre.

Assim, os cristãos misturam os dois textos. Logo, atribuem o castigo descrito por São Paulo a um dos presentes na lista de São João. Apesar de castigo e condenados aparecem em listas separadas, creio que se trata do mesmo julgamento. Somente deixo claro que são textos diferentes.

É necessário que tenhamos um entendimento correto da Palavra de Deus para não cairmos em erros e levarmos muitos a praticá-los. Por causa disto, infelizmente, existem muitas heresias e falsos ensinamentos. Acredito que tais erros, na maior parte, surjam, não de forma intencional (afinal de contas, qual pregador consciente de sua responsabilidade em Cristo gostaria de cometer uma heresia?). Todavia, falsas interpretações podem levar milhares ao inferno e, é verdade que muitos são usados pelo diabo.

Recentemente, ouvi de um pregador que Martinho Lutero ajudou na colonização dos Estados Unidos da América, indo de cidade em cidade e fundando vilarejos (motivo pelo qual esta seria uma nação de maioria protestante). Pelo que a história conta, Martinho Lutero começou a Reforma, por volta do ano de 1517, na Europa, século XVI, ou seja, a América era recém descoberta. Os Estados Unidos da América foram colonizados pelos ingleses muitos anos depois e, Martinho Lutero, um alemão, nunca colocou seus pés em continente americano.

Não serei conservador e farisaico a ponto de elevar a erudição ao princípio mais importante na pregação do Evangelho. Os próprios Apóstolos Pedro e João foram considerados "indoutos e iletrados" (Atos 4:13), porém, o Espírito de Deus agia através deles e os doutores da lei ficavam admirados com sua sabedoria. Tenho consciência de que a revelação do Espírito Santo está acima de qualquer conhecimento humano. Contudo, preocupa-me que um erro como o citado anteriormente coloque em xeque a credibilidade do pregador e da pregação, pois, se há um erro como este, quantos outros conceitos e informações incorretas existiriam na mensagem transmitida?

Necessitamos manejar bem a Palavra de Deus, como sugere o Apóstolo São Paulo a Timóteo (II Timóteo 2:15) e, vigiar, para não transmitir mentiras e falsos ensinamentos ao povo de Deus.

O texto a seguir, foi retirado do livro do Apocalipse, mais precisamente de seu capítulo 21, versículo 8. Na tradução em português Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida (1990), texto tradicional usado e preferido na maioria das igrejas protestantes, encontra-se escrito da seguinte forma:

"Mas quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte".

O texto é fortíssimo e coloca os tímidos no mesmo patamar que todos os outros pecadores, tais como, homicidas e feiticeiros, que não herdarão os novos céus e a nova terra.

Imaginemos como se sente uma pessoa cristã e tímida ao ouvir a palavra citada acima. A verdade é que nunca concordei que Deus jogaria alguém num lago de fogo e enxofre devido sua timidez. Então, contrario a palavra de Deus? Não. Nunca tive tal pretensão e tamanho sentimento de rebeldia, porém, sempre estive atento para bem entender o que Deus quis revelar ao transmitir estas palavras ao Apóstolo São João, em seu exílio, na ilha de Patmos.

Certa vez, eu observava o comportamento de uma criança. Ainda era muito jovenzinha e, assim que se aproximou um estranho, simplesmente tornou-se tão envergonhada, que seu comportamento mudou instantaneamente. Aquilo me levou a esta reflexão: Como pode uma criança que está apenas começando sua vida ser tão tímida?

Antes, eu imaginava que a timidez era provocada por traumas e frustrações (o que pode também estar correto), porém, como uma criança tão nova adquirira tais traumas? Conclui que, a timidez seria uma característica da personalidade tal como qualquer outra característica. Existem pessoas que desde muito jovens são muito extrovertidas, falam bastante; outras, dificilmente riem, enquanto há das que são muito divertidas.

A timidez é nada mais nada menos que, mais uma das inúmeras características que compõem a personalidade de cada ser humano. Também entendo que a timidez exacerbada ou excessiva, pode decorrer de uma psicopatologia. E quaisquer outras características podem, da mesma forma, apresentarem-se doentias. Existem casos de pessoas que buscam tratamento médico especializado. Conta-se a respeito de doentes que, não conseguem assinar uma simples folha de cheque em público. Alma, sentimentos e personalidade estão intimamente ligadas. A característica, timidez, expressa-se dentro dos limites da normalidade ou não.

Quando um filho tira uma boa nota na escola e não recebe a devida apreciação, dos seus pais, por exemplo, é possível que seja exposto a um sentimento de frustração, que marcará sua personalidade. O mesmo ocorre com o filho que é mandado calar-se todo momento. Talvez, ele pense que ninguém goste de ouvi-lo e passe a evitar o diálogo ou expor suas ideias publicamente. Como não sou psicólogo, ficarei por aqui e volto ao texto bíblico.

No livro de São Marcos, capítulo 4, versículo 40, no relato em que Jesus apazigua a tempestade, encontra-se: "E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé"? (Tradução de João Ferreira de Almeida).

Neste pequeno trecho, Jesus faz alusão à timidez dos seus discípulos. Será que Jesus repreendeu seus discípulos por serem envergonhados? Pela análise da conjuntura em que se dá a repreensão, e da indagação que advém, percebe-se: a timidez a qual Jesus se referia é o mesmo que a carente e pequena fé. Os discípulos não estavam acanhados, encabulados ou envergonhados, porém, desconfiados e amedrontados. A sua timidez era o sentimento de incapacidade, insegurança e temor. Obviamente, a timidez com senso de acanhamento encerra o temor. Contudo, um indivíduo por mais acanhado ou recatado que seja, em meio a tão presente perigo, esquece-se de seus pudores.

Um jornal trouxe a seguinte manchete: "Orçamento elaborado pelo governo prevê tímidos investimentos para saúde". Não precisamos ser doutores em interpretação para compreendermos o que o texto quer dizer.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, editora Objetiva, conceitua a palavra tímido de duas principais formas: acanhado, falto de desembaraço, ou, que tem temor, receoso. O que os discípulos sentiram foi o temor e o receio. Eles não colocavam sua fé em prática e aceitavam o fato de que todos pereceriam em meio à tempestade. Por isto, Cristo os questionou: "...Ainda não tendes fé"?

A palavra grega original que aparece nesta passagem deriva de δειλός (Deilos, ver Strong # 1169). Por que sois tão “deiloi”, perguntou Jesus. Esta é a mesma palavra encontrada nos textos já citados de Apocalipse, São Marcos e ainda, São Mateus, capítulo 8, verso 26.

A palavra, tímidos (deilos), aparece três vezes no Novo Testamento e é traduzida, em diversas versões, por covardes e medrosos. Então, não seriam os covardes aqueles que temem? Mais uma vez, faz sentido. Estes covardes serão aqueles que não depositaram sua fé em Cristo, os medrosos que devido a perseguição, negaram a fé e fugiram do compromisso. Envergonharam-se de Cristo e preferiram não se envolver na causa cristã.

Como vemos, a palavra original do texto grego não faz referência à timidez no sentido de acanhamento, que, para o caso, apresenta as palavras derivadas de αἰσχύνη (Aischune, ver Strong #152 e 153) ou ἐπαισχύνομαι (Epaischunomai, ver Strong #1870) e aparecem inúmeras vezes no Evangelho e nas Epístolas. Como exemplo, sugiro a leitura dos textos de São Lucas 14:9, 16:3 e Romanos 1:16, para entender onde foram empregadas (talvez existam outras palavras que nos remetam ao mesmo sentido, no entanto, creio que estas bastam para esclarecimentos).

A versão inglesa King James da Bíblia Sagrada (KJV), traduz a palavra grega deiloi, no texto de Apocalipse, fearful, como vemos a seguir:

“But the fearful, and unbelieving, and the abominable, and murderers, and whoremongers, and sorcerers, and idolaters, and all liars, shall have their part in the lake which burneth with fire and brimstone: which is the second death”.

Em língua portuguesa, fearful, segundo Michaelis, é também o mesmo que medroso ou receoso.

Logo, está claro que são os deilos os que não herdarão o reino dos céus, e não os aischune. Embora, aqueles que se epaischunomai do Evangelho, correm igual risco de ficar do lado de fora.

Espero que à luz da palavra de Deus dada pelo Espírito Santo revelador, e à luz da razão, da qual o Senhor nos tem dotado a fim de que também a utilizemos, possamos a cada dia obter o entendimento necessário para o nosso crescimento e, consequentemente, do maravilhoso Corpo de Cristo do qual fazemos parte. Escrito em 2004, Rouen, França.

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Último amor

Dentre todas as palavras que escolhesse,
Ou sentenças que escrevesse
A teu respeito o que penso,
Desnecessárias, pois, seriam.
Bastaria, eu te amo, Letícia,
E oxalá tu me entendesses.


Amanhã, não importará a cor de seus cabelos,
O tom de sua pele, a espessura dos seus lábios
Por mais lindo e desejado
Que seja a forma do teu rosto.

Ou a beleza do sorriso,
O olhar leve, a boca macia,
As mãos quentes e a voz suave
Com que ouço melodias
Dentro do coração.

Ousarão artistas muitos,
Eternizar-te alegres olhos
Que iluminam tua face
Junto ao traço que te molda
E parte do teu peito.

Pobres homens posto que não
Saberão nunca qual fora
O charme com que olhavas ou
O sino com que soava
O timbre de sua voz.

Do perfume de teu corpo,
Emanavam sentimentos
Inspirados pelos ventos
Que os trouxeram até mim.

Quão injustas as pinturas,
Mentirosas as palavras e
Enganosos os espelhos,
Tal qual paisagem que se tem
Da infância uma lembrança,
Referência a ti fizeram.

Que importa fora sim, a viva semente
De amor cadente,
Semeadura tua dentro de mim:
Letícia, Alegria do meu jardim.

Brisa que refresca, vista deleitosa
Campos verdejantes, pétalas coloridas
Hão de te lembrar para sempre em minha vida.

As páginas mostrarão que fez comigo
Uma paixão, que pareceu tão inocente
Quanto um ovo de serpente
Guardado no meu colo, disfarçado de ilusão,
Engano que insiste ser verdade
E não desiste, pelo que teme o triste
Sentimento do correr atrás do vento.

Encerro aqui palavras prudentes,
Ciente de que poucas,
Menores serão minhas culpas,
Porque mais a flor se alisa,
Há chance de feri-la, e, ao tomar
A borboleta, arrisca-se perdê-la.

Escrito em 10/08/2011.

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sopa de letrinhas

Sei que já o afirmei, às vezes, surge-me uma profunda necessidade, um desejo ardente de escrever.

Escrever não é tarefa fácil. Alguns dias atrás percebi, ao ler um texto no jornal, que me utilizei de uma fórmula um pouco desgastada na arte de expressar. Senti desgastada por senti-la familiar demais. Um pouco sem graça, diria.

Naquele texto, o autor, ousava um tom melancólico, declarado por ele mesmo, e descrevia sua experiência acerca de um passeio descompromissado pela cidade. Para mim, nada de novo. O texto tinha um gosto de isopor.

Mas, não seria suficientemente insensível para que não o observasse de outro ponto de vista. Se eu misturasse um pouco daquela mesma melancolia, é provável que a leitura me transmitisse a mesma sensação. Creio que falhou em enviar junto ao texto seus condimentos. Não havia comigo nenhuma pitada daquela especiaria no dia em que o li.

Esta experiência fez-me refletir sobre que escrevo e do modo como escrevo. Não quero que meus leitores sintam-se como que mastigassem um pedaço de bucho destemperado.

Li dois livros que me marcaram profundamente. Sucesso de vendas, felizmente emprestados e não comprados. Os dois livros continham o mesmo gosto de talher. Decepcionou-me não a mensagem, mas, como eram travados os diálogos. Aquelas conversinhas lembravam-me uma “tempestade”: sabemos que depois de um relâmpago, ouve-se o trovão.

A surpresa de sua falta gostaria de tê-la experimentado. Esta é a cena: mãos aos ouvidos, cenho franzido, olhos serrados, sem que ouvisse qualquer coisa. Na sequência, perguntaria: que ocorreu com o trovão? E, numa investigação ainda mais acurada subsequente, duvidaria dos meus próprios olhos: fora mesmo um relâmpago? Entretanto, tudo soava previsível, planejado no melhor estilo “apresentação jogral”, ensinado no ensino fundamental.

Aquilo foi um atentado à inteligência e uma crueldade contra a imaginação, pobrezinha. Psicologia pretensiosa na tentativa de melhorar o coração das pessoas. Jograis caem bem mesmo em corais, e ainda, muito bem enlatados, digo, muito bem ensaiados...

Em última análise, quem sabe, esteja sendo rigoroso demais. E se as palavras possuírem mesmo sabor? Esta deve ser a única explicação para tantos sucessos editoriais, uma vez que aceito quiabo, mas não suporto berinjela.

Assim, compreendo o ponto de vista de quem lê e se delicia com o estilo “onde há fumaça há fogo”, primo próximo do estilo “tempestade”, ou quaisquer outros. Afinal, quem pode discutir preferências desta natureza?

Há algumas semanas, encontrei-me angustiado pela sétima arte. Era fim de noite. De repente, as primeiras cenas daquele que fora um grande sucesso de bilheteria, geravam tantos e tamanhos maus sentimentos dentro de mim que me sentia deveras perturbado, tenso e irritado. Alguns o classificam como entretenimento...

Obviamente, sabia tratar-se de uma ficção (dita baseada na realidade), contudo, admito, os diretores e roteiristas estão se tornando cada vez melhores (ou piores), o que requer cada vez mais atenção de minha parte. Resta-me lamentar pelos fabricantes de alicates de unhas. Mas, como aprendi, inventaram o botão liga/desliga, decidi com serenidade, não seria apropriado que aquela película ditasse a maneira como eu acabaria a noite. Foi bom economizar energia, e não me refiro somente à elétrica.

Todavia, não posso culpá-lo (ao filme) tão veementemente, afinal, salas de finos concertos, onde afortunadamente poupam-nos dos palavrões, exercem o mesmo fascínio e efeitos colaterais, amenizados por quebras em movimentos e não por intervalos comerciais. Logo, questão de sensibilidade.

E quando escrever, tomarei este cuidado: enriquecerei de vitaminas a minha receita, pois, caso os temperos não toquem aos paladares, pelo menos, o prato fará muito bem, mesmo que não o saibam.

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pinceladas

Na manhã daquele domingo vi algo diferente, e tem a ver com pincéis...

Eu vi um pintor que, usava um único pincel numa de suas obras mais sensíveis e delicadas. Tratava-se de uma pintura complexa, repleta de detalhes e rica em nuanças. Ao finalizar a obra, o artista não expressava verdadeiramente seu sentimento, pois, com tantos traços diferentes a desenhar, e utilizando-se do mesmo pincel, era-lhe impossível que conseguisse. O resultado não foi satisfatório.

Em contrapartida, o artista tinha agora a sua disposição inúmeros tipos de pincéis. Pincéis largos, pincéis curtos, chatos e redondos. Para cada necessidade, enriquecia-se a obra pelo pincel cujo traço era o mais adequado e apropriado. O resultado sobrepujou sobremaneira a qualidade da primeira pintura.

No final, entendi que somos como aqueles pincéis. Dependendo do trabalho, alguns pincéis são mais requisitados que outros. Participamos de muitas obras durante a vida e não seremos sempre protagonistas, e nem poderíamos. No entanto, somos iguais em importância e relevância para o alcance da exatidão.

Cada qual tem uma função, um dom, imprescindível e irrevogável que não pode ser substituído por nenhum outro. Portanto, adequabilidade é um conceito que cabe somente ao artista e não ao instrumento.

É pelo traço pretendido que se escolhe o pincel e ele não se ensoberbece, pois, o traço não é a obra, mas, parte dela.

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vaidade e necessidade

No capítulo 10, Evangelho de São Marcos, a Bíblia narra o encontro de Jesus com uma grande multidão.

Caminhavam todos quando, de repente, Tiago e João preparam um pedido ao Senhor: Mestre, queremos que nos faça o que te pedimos, verso 35.

O tom empregado soa mesmo como uma exigência, ou, uma sugestão no mínimo irrecusável. Jesus deu-lhes a oportunidade para que abrissem seus corações: Que quereis que vos faça?, verso 36.

Naquele instante, Jesus dirigia-lhes a atenção e, creio, capricharam no pedido, que, creio ainda, havia algum tempo acalentavam em seus corações: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda, verso 37.

A resposta imediata de Jesus foi: Não sabeis o que pedis..., verso 38.

E Jesus continua: ...o assentar-se à minha direita, ou à minha esquerda, não me pertence a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado, verso 40.

Após os esclarecimentos, continuaram seu caminho, quem sabe, um pouco frustrados. Fora como um balde de água fria em suas tão legítimas pretensões.

Adiante, havia um cego chamado Bartimeu que, mendigava junto ao caminho. Ele clamava por encontrar Jesus, ao passo que, a multidão o repreendia.

Tanto gritou o homem que Jesus pediu que o trouxessem. Ao se encontrarem, Jesus dá-lhe a oportunidade para que abrisse seu coração: Que queres que te faça? E o cego lhe disse: Mestre, que eu tenha vista, verso 51.

Naquele instante, Jesus o cura e diz: Vai, a tua fé te salvou. E logo viu, e seguiu a Jesus pelo caminho, verso 52.

Neste texto, Jesus fez a mesma pergunta em duas ocasiões próximas, porém, suas respostas foram distintas.

Finalizando, vejo aquela mesma multidão a desaparecer no horizonte com Jesus. Ao lado dele, um homem agora salvo, saltando de alegria pelo que lhe havia sido concedido. Do outro lado, os dois irmãos, quem sabe, tristes e pesarosos por não haver recebido o que queriam. Ironicamente, Bartimeu enxergava perfeitamente qual era sua verdadeira necessidade, enquanto que, Tiago e João, não. Sua vaidade os cegava.

E quanto a nós?

Escrito em 15/07/2011.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Chocovaca ou Vacatoni?

Esta aconteceu hoje e, tão logo soube do caso, resolvi colocá-lo no papel...

- Tu não vieste ver-me ontem, disse-lhe a vaca, um tanto consternada.
- Desculpa... é que... eu estava muito ocupado com pensamentos.
- Pensamentos? Posso saber?
- Eu pensava naquilo que provavelmente falta em minha vida.
- Falta em tua vida? Mas... que poderia te faltar?
- Também não sei... Pensei, pensei, pensei... mas, não encontrei.
- Então que te faz pensar que te falta algo?
- É que sinto como se faltasse. Não sei bem como explicar... às vezes, a vida parece tão monótona...
- Eu poderia ajudá-lo a descobrir.
- Tu farias isto por mim? Se tu podes, continues!
- Pois bem, antes de continuarmos, corra até tua casa e traga o livro de receitas de tua mãe.
- Livro de receitas? Como assim?
- Vamos, corra lá e traga o livro. Tu não queres que te ajude?
- Eu não entendo como isto pode me ajudar, mas, se tu insistes...

O menino correu até a casa e voltou cerca de uma hora depois com o livro de receitas de sua mãe. Ficou contente em trazê-lo sem que algum adulto o questionasse do porquê levava-o consigo ao campo.

- Eis o livro de receitas! Poderias me explicar agora do que se trata?
- Tu já fizeste um bolo antes?
- Sozinho ainda não. Eu já ajudei a minha vovó e a mamãe a fazê-los, mas nunca antes fiz um por conta própria.
- Ótimo, creio que isto já basta. Escute-me, procure no livro o bolo que tu mais gostas.
- Bem, deixe-me ver... eu amo aquele com frutas cristalizadas...

O menino procurou pela foto do bolo que mais gostava e mostrou à vaca. Colocou o livro aberto sobre o palanque mais baixo da cerca, enquanto sua amiga observava.

- Ótimo, disse ela.
- Quer me explicar agora?
- Diga-me, como se faz tal bolo?
- Bem, este bolo se faz... E começou a ler a receita, passo a passo.

Enquanto ele lia, a vaca prestava atenção em cada detalhe. Quando terminou, disse ao menino:

- Ótima receita, mas, falta uma coisa.
- Falta? Eu li a receita exatamente como ela está descrita!
- Falta-nos chocolate! Eu amo chocolate!
- Desculpe, mas não posso concordar. Minha mãe não usa chocolate e, apesar de também gostar de chocolate, não creio que mudar a receita desta maneira seria bom. Eu acho que o bolo se transformaria em outro que não aquele que sempre gostei.

- Então, agora acho que tu entendes o que quero dizer.
- Amiga vaca, ainda está confuso!
- Ótimo, eu esclareço...

O menino sentou-se sobre a relva com grande expectativa. Esperava aprender algo precioso.

- O segredo para tua cura é simples: aprenda a fazer a pergunta correta.
- Continue... dizia ele, como quem já sabia ser perda de tempo resistir.
- Ora, se tu fosses aquele bolo de frutas cristalizadas, estaria correto dizer que te falta o chocolate?
- Não.
- Meu amigo, aquilo que te falta, tu só saberás no dia em que tu souberes quem tu és. Só ai, tu saberás a resposta exata daquilo que te falta para viver. Tua insatisfação é legítima, mas, sem saber quem tu és, corres o risco de te acrescentar daquilo que não te convém e, não buscar daquilo que te é essencial.

O menino estremeceu. Enganaria-se quem afirmasse que aquele olhar fixava-se em um ponto qualquer entre os olhos da vaca.

Escrito em 06/05/2011.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Coração, bastão, interpretação

Hoje, parei para escrever. Às vezes, brota-me uma vontade incrível de expressar algo. Esta vontade muitas vezes nasce de uma percepção. Mas, agora, confesso que nenhuma delas passou por aqui. Simplesmente, senti um movimento no peito e um desejo do que não sei.

São muitos os motivos que levam alguém a colocar algo no papel. Este impulso é um mistério. É uma força capaz de nos mover de uma zona qualquer (confortável ou não), para traduzir pensamentos e sentimentos.

Tal impulso é poderoso. Afinal, quantas coisas na terra seriam tão fortes e capazes de mover a nós mesmos? O homem, sabe-se, é uma fortaleza inescrutável quando assim decide ser.

Contudo, o que eu gosto mesmo é falar de sentimentos. Sabe, aqueles sentimentos que impossível se é traduzir em palavras? É justamente por ser difícil que amo o desafio. Não sei se consigo, ou melhor, muitas vezes sei que não sou capaz de expressar exatamente aquilo que vi com o coração. Outras vezes, surpreendo-me eu mesmo com a forma como descrevo uma emoção. E quando eu mesmo gosto, sinto que alcancei meu objetivo.

Dias atrás, criei a frase: sensibilidade é a arte de se espremer a pedra e se tirar poesia. Eu gostei dela. No entanto, confesso: não nasceu assim. Na cena que vi, havia uma pedra que vertia suco de laranja. Então eu escrevi: sensibilidade é espremer a pedra para se beber poesia... E confesso mais uma vez: nem mesmo esta última saiu pronta desta forma.

Através dela, quis dizer, uma pessoa sensível é aquela cuja percepção a capacita olhar coisas brutas, sem valor, sem forma definida, sem beleza, esquecidas, rejeitadas, desapercebidas e, daquilo, extrair algo bonito.

Após tê-la escrito e modificado algumas vezes, divulguei-a entre amigos. Já era passado algum tempo e eu ainda continuava a pensar na frase. Foi neste instante que ela reinterpretou-se para mim. Como? Bem, foi assim...

A frase fazia parte de um poema que escrevi. Resolvi criá-lo como uma brincadeira, após, numa dinâmica de grupo, ser submetido a uma avaliação acerca de meu grau de sensibilidade (do ponto de vista sentimental). Então, a reinterpretação que me surgia consistia em: “apesar da crítica (pedra), eu a transformava em poesia (texto)”. Logo, entendi que talvez meus avaliadores a tenham interpretada desta forma e, consequentemente, eu os consideraria apedrejadores.

Então, imaginei, que besteira fizera. Agora sim, de uma vez por todas, deveras estariam perante um sujeito com muito pouca sensibilidade.

Equívocos como estes acontecem às pencas, em todo lugar, a toda hora, em todo momento, com toda classe de pessoas. Talvez seja este um dos motivos pelo qual Jesus nos instruiu: não julgues... Ao fazê-lo, o risco de cometermos injustiças é potencialmente alto. O coração é o que há de mais sensível. Sensibilidade é saber entender o que ele fala. Sensibilidade é perceber que no mundo, não só de bastão sofre um coração, mas também, de interpretação.

Escrito em 03/06/2011

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terça-feira, 31 de maio de 2011

A lenda da Sensibilidade

Morava um indiozinho
Numa oca da floresta
Era simples sua casa
E na porta tinha fresta.

Seu pai era caçador
E o menino também seria
Ajudava lá no campo
E trabalhava com alegria.

A arte o menino aprendeu
Seu pai ficava em casa
Já estava velho, coitadinho
E na esteira descansava.

Tossia muito o velhinho
Não se sabia o porquê
E logo, algo veio
À cabeça de Cauê:

Nas noites onde há ventania
Ouço a porta que sibila
O vento que aqui entra
Ele engole e não aguenta!

Cauê fechou a fresta
A porta se calou
O pai velho se levanta
E a tosse já passou.

Na aldeia todos criam
Que um milagre aconteceu
Por um filho tão sensível
O paizinho não morreu!

O pajé fez uma festa
E chamou o caçador
Aguardavam a resposta:
Quê findou com sua dor?

O filho entendeu o motivo
E virou lenda até a cidade
O segredo da alegria
É viver sem sibilidade...

Sensibilidade é o dom de se espremer a pedra e se tirar poesia.
Escrito em maio de 2011.

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segunda-feira, 21 de março de 2011

Lembranças da casa dos avós

Lembro-me que amava a casa dos meus avós. Uma casa de madeira, simples, muito simples, nem pintura tinha. Os objetos me encantavam... Gostava muito da passadeira emborrachada, decorada de arabescos. Eu contornava suas linhas com os olhos e amava sentir sua textura lisa e gelada.

Na sala havia um armário em madeira. Era o tempo dos móveis que duravam bastante. Ele ficava encostado na parede à direita da porta da cozinha. As janelas da sala eram em madeira, e os vidros eram erguidos e presos no alto por travas em forma de borboletas. Também tinha duas abas que se abriam, uma para a esquerda e outra para a direita. Nas manhãs, quando fechadas, os raios de sol penetravam por entre as frestas. Dela, era possível ver o cajueiro. Foi naquela janela que vi meu avô pela última vez. Eu passava no caminho e ele, sentado em sua cadeira, com os braços cruzados na base da janela, descansava o queixo sobre eles. Parecia triste. Aquela foi a última vez que o vi. Se eu soubesse disto, teria olhado uma vez mais.

O armário era alto, na altura do umbigo de um adulto. As gavetas estavam no centro, umas três, como três andares. Nas laterais, separadas pelas gavetas, havia portas. Elas só ficavam fechadas porque meu avô providenciara tramelas. No entanto, o que mais me agradava, era girar os puxadores adaptados por ele também. Não sei como ele os conseguiu, pois, os puxadores não pareciam originais. Eram peças de plástico que giravam, presas no centro por um prego ou parafuso. Ficava feliz em girá-los, girá-los e girá-los, especialmente o puxador vermelho.

Sobre o armário, havia uma caixinha de música. Na verdade, uma caixinha de vidro que comportava um relógio. A peça tinha uma estrutura metálica, cor de bronze, e parecia um carrossel fechado. Abaixo do mostrador, um objeto esférico do tamanho de uma bola de gude, de onde saiam quatro perninhas (como se fosse uma cadeira com um acento arredondado). Ele ficava suspenso, preso pelo eixo até a base, onde, havia uma gavetinha. Quando eu a abria, automaticamente aquela cadeirinha girava acompanhada de uma melodia. Costumava chamá-la de robô. Na parte traseira, havia uma borboleta para dar a corda no relógio e, abaixo, no robozinho.

Na parede em que o armário encostava, à esquerda da janela, ficava uma placa de madeira branca, com inúmeros ganchos que sustentava a coleção de chaveiros do meu avô. Nunca soube quantos eram, mas toda placa estava repleta. Dentre os que eu me recordo, existia a réplica de uma moeda. O que me chamava atenção era o diâmetro dela, pois, nenhuma moeda que eu conhecia era grande como medalhão.

Ao lado da coleção de moedas, meu avô tinha um quadro interessante. Nunca vi outro igual até os dias de hoje. Era um quadro grande, mais comprido que largo. Nele estava escrito: A Vida do Lápis. Então, abaixo do texto, um pedaço de madeira bruta sucedia outro, evoluindo lentamente e se transformando numa coleção de diversos tipos de lápis. Era o processo de fabricação. Um deles sumiu. Tratava-se de um lápis de carpinteiro. Meu avô tirara quando precisou dele. Abaixo, estavam alguns tubinhos cheios de pós escuros e coloridos, o grafite.

Na sala, ficava a poltrona do meu avô. Era o seu trono. Ele se sentava lá, nas tardes, e quando percebíamos, escutávamos seus roncos. A poltrona era velhinha, rasgada, e em cada um dos braços, um buraco, como se meu avô, tivesse navalhas nos cotovelos. De vez em quando, ele a submetia a algum conserto.

O chão era de madeira, e gostava muito quando minha avó o encerava. Era diferente. Em alguns pontos da casa, o assoalho tinha frestas e eu podia com os olhos bem rentes ao chão enxergar o porão. Aliás, muitas vezes me aventurei ao engatinhar naquele misterioso lugar, que exalava o cheiro de terra.

Num cantinho da sala, após tê-la atravessada por completo, ficava um sofá. Eu gostava muito daquele cantinho, pois, sentia uma sensação de proteção. O velho sofá, ao levantar-me nele, permitia-me alcançar a janela e ver o quintal com o grande pinheiro araucária bem pertinho da casa. Bem abaixo da janela, um jardim, onde meus avós cultivavam algumas plantas e rosas.

Um dos cômodos que mais me agradavam era o quartinho de costura. Uma cama, à esquerda da porta, era coberta por muitos pedaços de retalhos de tecidos ou roupas limpas para passar. Amava mergulhar e me cobrir. Às vezes, eu me sentava na cama e observava minha avó costurar. A máquina, de fabricação alemã, funcionava a pedaladas, e após o uso, era recolhida, bastando que a baixasse para dentro de sua caixa. A luz entrava pela janela, na parede onde a máquina encostava. Acima da máquina ao lado da janela, uma lâmpada incandescente ajudava a iluminar o trabalho. Daquela janela, observa o quintal, um abacateiro, uma parreira de uvas verdes que escondia uma valeta por onde escorria a água que saia do banheiro. O banheiro já não era apenas uma casinha com um assento vazado, mas, já tinha um sanitário e um chuveiro. O chão era em cimento bruto, as paredes de madeira, e ficava do lado de fora da casa. Tudo feito pelo meu avô. Quando havia falta de água, costumava usá-lo, pois, devido ao declive do terreno, a casa dos meus avós era a primeira a chegar água na torneira.

Os cômodos internos da casa não tinham portas, mas sim, cortinas, por exemplo, entre o quarto dos meus avós e a sala. Sendo assim, se meu avô dormia, não era muito aconselhável fazer barulho na sala. O guarda-roupa dividia um único cômodo em dois: o quartinho de costura e o quarto do casal. Eu tinha muito pudor ao entrar nele. Isto, porque, era lá que ficava o guarda-roupa. Não me recordo de algum dia tê-lo aberto sem autorização. Em seu interior, era o lugar onde guardavam as coisas mais preciosas da casa, como os documentos, comprovantes de contas pagas e até uma das jóias do casal, que, no dia em que fiz 18 anos, meu avô me presenteou. Na semana em que ele se foi, voltei a casa. Estávamos eu e minha avó no quarto. Ela abriu o guarda-roupa. Tirou o atestado de óbito para me mostrar. Enquanto isto, eu ouvi uma voz masculina na porta da cozinha. Corri, na esperança de que ele tivesse voltado...

Os quadros suspensos me encantavam. Lembro-me que aprendi a desenhar rostos observando as pinturas. Eu estudava minuciosamente cada traço, e isto me ajudou a reproduzir detalhes da figura humana mais tarde. As molduras eram trabalhadas e ficavam inclinadas presas por um barbante, como se os retratados desejassem observar quem passava abaixo. As faces eram pintadas a óleo. Num dos quadros, minha mãe quando criança, em outro, meus tios quando pequenos vestidos com terninho, e ainda, meu avó e minha avó quando jovens. Minha bisavó falecida (de quem eu costumava balançar o monte de pele flácida e enrugada dos braços enquanto ela assistia a novela), também tinha o seu retrato. Nesta época, ela era a única que deixava saudades. Hoje, também o meu avô.

Na cozinha, minha avó colocava uma lata de mantimento sobre a cadeira. Depois, na hora do almoço, sentava-me sobre a lata para regular minha altura na mesa. Enquanto ela lavava a louça, ficava em pé numa cadeira ao lado da pia. Na varanda, lembro-me do fogão a lenha onde era cozido o feijão e das cascas de laranja cortadas em espiral, secas, suspensas em um arame. Ao lado do fogão, um banco cujo assento era móvel, ou seja, servia como baú. Em seu interior, guardavam-se pacotes de papel em que vinham embrulhados os pães. Depois, eram cortados em forma de retângulos, onde meu avô espalhava fumo e enrolava como um canudo. Depois, colava com saliva para fumá-lo.

O único cômodo onde havia uma porta, era um quartinho ligado à cozinha. Fora o quarto dos meus tios enquanto solteiros. Um dos tios de minha avó, de idade avançada e saúde debilitada dormia ali. Ele costumava levar doces para as crianças todos os fins de tardes enquanto ainda caminhava. Foi ali também, que ele se foi. Quando isto aconteceu, minha avó estava com ele. Lembro-me da vela acesa ao lado da cama de um quarto agora vazio.

Uma das colunas da varanda, era um tronco de madeira bruta, onde meu avô coçava as costas. Eu o observava roçando o corpo nela. Era também na varanda que meu avô “consertava” os peixes, e as escamas pulavam por todos os lados ao raspar a faca neles.

As coisas mudaram muito desde estas lembranças. Poucas coisas sobraram. As lembranças permanecem. As crianças crescem. Recordar, faz-me sentir a infância novamente... E depois, sinto a velhice que ainda não chegou: que lembranças deixarei se um dia for avô?

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Por que brilham as estrelinhas?

Esta manhã me perguntava: por que brilham as estrelinhas? Entendi que toda estrela deseja ser criança. Então, elas emitem sua luz e correm para a Terra na esperança de que, ao olhar o céu, contemplem o seu brilho. E estes pensamentos, inspiraram-me alguns versos.

Esta manhã me perguntava:
Por que brilha uma estrelinha?
Entendi que seu desejo
É ser menino ou menina.

Ela emite sua luz
E corre para a Terra
O seu brilho no escuro
Não se apaga como a vela.

E por isso fui pensando
Nestas coisas do universo
As tão belas pequeninas
Inspiraram-me estes versos.

Dizem que a estrelinha que vemos hoje,
É um sinal da estrelinha que foi um dia
Um ponto de luz majestoso
Suspenso no céu como um guia.

Homens fitavam os céus
As luzes inspiravam-lhes filhos,
Navegantes aguardavam a noite
Magos traçavam caminhos.

Brilham, brilham muito longe,
Estes pontinhos coloridos
Fariam ideia como é
Divertido ser menino?

As distâncias não as intimidam
Pois nasceram pra brilhar
Pouco importa aqui na Terra
Quantos são a contemplar.

A luz que vejo hoje,
Foi a que um dia brilhou
Quão bela, lá no alto
A estrelinha cintilou!

Dentre todas as estrelas
Que existem no universo
Encontrei uma, linda, que
Eu descrevo nestes versos.

Ela via a luz das outras
Mas não entendia si mesma
Sem um espelho que mostrasse
Ou refletisse sua beleza.

Alguém lhe deu uma ideia
Para ver a si brilhar:
Vai correndo lá na Terra
E criança se tornar.

Ela olhava lá de cima
Achava-se tão pequena
Pensa ela bem quietinha:
Este sonho vale a pena!

A criança quando nasce,
É a estrelinha que brilhou.
Desceu logo, bem depressa
E seu brilho dissipou.

Um dia toda criança
Observa o céu surpresa
Pergunta-se donde vem
Tanto brilho e beleza.

Que é aquilo, lá no céu?
A resposta eu bem que sei
A mais famosa que conheço
É a Estrelinha de Belém!

Por que uma estrela brilha?
Porque quer ser criança!
E da Terra ela verá
Quão bela sua herança.

Um dia toda criança
Retorna ao céu como estrela
E do alto, ela se faz,
A pergunta que entra em cena:

Que é aquilo, lá na Terra?
A resposta eu bem que sei
Quem sabe seja ela
A luzinha que deixei.

Dizem que a estrelinha que vemos hoje,
É um sinal da estrelinha que foi um dia
Um ponto de luz majestoso
Suspenso no céu como um guia.

Então, quando olhamos alguém
Que um dia nos magoou
Como podemos julgá-lo
Se no passado ficou?

Escrito em 25/02/2011

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Nem sempre evitei amar

Frustração é o efeito colateral de uma expectativa não atendida... Acho que é assim que me sinto agora. Bem, surgem-me algumas lembranças...

Quando eu era criança, eu tinha um papagaio. Costumava deixá-lo subir nas árvores do quintal durante o dia. Ao entardecer, recolhia-o para dentro de casa.

Contudo, uma das tardes foi diferente. Na tentativa de trazê-lo, o papagaio voou sobre o telhado. Corri na direção que tomou. Nunca mais o vi (Junior, perdoe-me por tê-lo assustado).

Eu não chorei, até que, fui indagado sobre seu paradeiro. A confissão trouxe consigo o choro, a voz embargada e as lágrimas abundantes. Confessar, às vezes, faz doer o coração.


Em outra ocasião, eu tinha dois porquinhos-da-índia. Eu cuidava deles e encontravam-se dentro de uma caixa de papelão. Minha mãe pediu-me que fosse ao mercado. Quando eu voltei, estavam mortos. O cãozinho os matou (Porquinhos, perdoem-me por tê-los deixado sós).


Novamente, as lágrimas surgiram e a dor desabrochou. Eu que tinha tanto amor, tanta expectativa na satisfação que aqueles bichinhos me davam, mas agora...

Após isto tudo, como que as marcas das desventuras tornassem-se um filme diante de meus olhos, percebi que, a melhor maneira de evitar a dor da perda seria nunca tê-los recebido. Naquele dia decidi: nunca mais terei um bichinho de estimação.

Hoje, não tenho outras histórias de bichinhos e dores para contar. Eu estava certo. Nunca mais uma única lágrima verteu de meus olhos quanto à perda de um deles.

Em contrapartida, também não tenho as boas lembranças... o biquinho que me mordia a orelha, o eco da sua voz, a cabecinha com as penas arrepiadas entre minhas mãos ao acariciá-la... Também não tenho lembranças tais como as manhãs em que, antes de ir à escola, cortava o capim para os roedores, a casinha de papelão onde se escondiam, os pulinhos desajeitados e engraçados...

Para não sofrer, evita-se amar. E ao decidir isto, na verdade, matei antecipadamente a quem nunca encontrei. Nunca nos conhecemos e, talvez, este vácuo seja pior que qualquer dor, pois, onde estarão as boas recordações da minha vida? Escrito em 10/02/2011.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pão sujo

Em certa ocasião, ouvi acerca de alguém que, ultrapassando os limites de sua própria continência, engravidara sua namorada. O pronto julgamento que ouvi foi: esta foi a consequência de seu pecado.

Ao ouvir o parecer, algo soou estranho aos meus ouvidos: consequência de pecado?

Ora, a fornicação foi um erro, no entanto, a gravidez não. A gravidez foi um acerto.

A concepção jamais será consequência de qualquer pecado, pois, na realidade, uma concepção sempre será uma consequência natural. Não importa quão santo, ou quão impuro, quão lícita ou ilícita uma união; um ato sexual consumado encerra a possibilidade da geração de um novo ser.

Um casal, em tese, possui a mesma probabilidade de gerar uma criança tanto um dia antes de seu casamento quanto na noite de núpcias. Que diríamos daqueles? Que a gravidez foi consequência do pecado, enquanto destes, consequência do quê?

Logo, a fornicação, não traria consequência alguma? Traria sim, visto que pecado é. E esta consequência concentra-se em: uma profunda dor na alma, e o sentimento frustrante de que tudo que se experimentou, de outra forma, teria um sabor melhor.

E isto também vale para o dinheiro que se ganhou, ou a medalha que se conquistou.

Como reflexão, sugiro: “Suave é ao homem o pão ganho por fraude, mas, depois, a sua boca se encherá de pedrinhas de areia”. Provérbios 20:17

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Psicologia bovina do pensamento humano

Na fazenda, ninguém conseguia compreender o fascínio que aquela vaca exercia sobre o menino. Todos sabiam onde encontrá-lo, no final da tarde, nos dias de festas e finais de semana. Empolgado como um cão na presença do dono amado, ele abusava da companhia da vaca amiga...

- Certo, mas agora eu tenho uma novidade para te contar!
- Amo novidades!
- Dentro em breve tu ganharás um novo médico!
- Um novo médico? Bem, sei que estou ficando velha e, é natural que precise de atenção, mas, por que um novo médico?
- Deixas disto, tu estás muito bem.
- Que tu sabes que eu não sei?
- É o filho do veterinário... ele vai morar na cidade para se formar na mesma profissão.
- Uhm... isto é muito bom. No entanto, creio que ainda não existem garantias de que após se tornar doutor, ele venha para estas bandas.
- Tu tens razão. Mas há a possibilidade!
- Sim, nisto eu creio. Sempre há uma possibilidade. Mas, diga-me tu: quando irás a cidade estudar?
- Olha... eu não sei.
- Nunca pensaste nisto?
-Os adultos sempre me lembram disto. Eles sempre perguntam: que queres ser quando crescer?
- E o que tu respondes?
- Não sei. Se eu fosse um girino da beira do lago, eu diria que seria um sapo, uma rã ou uma perereca. Mas, a única coisa que eu consigo pensar é que quando eu crescer serei eu mesmo, só que maior, como meu pai...
- Talvez um pouco mais gordo...
- Quê?
- Deixa para lá... Amigo, escuta... Que gostaria de fazer quando estiveres grande?
- Tu me prometes que não contarás para ninguém?
- Palavra de vaca!

Como se revelasse um importante segredo, respondeu em tom baixinho:

- Eu gostaria muito de ser escritor. Daí, não precisaria te deixar. Não precisaria ir à cidade aprender, pois, contigo, já aprendo tantas coisas... Bastaria que eu tomasse nota do que dizes e, à noite, quando todo mundo fosse dormir, começaria a escrever. Depois, eu venderia os nossos livros lá na cidade, já que aqui na fazenda, não teriam pessoas suficientes para comprar todos.
- Tu acreditas nisto mesmo?
- Claro que sim. Por que tu achas que nós mandamos teu leite para vender lá?
- Faz sentido...
- Só uma coisa me incomoda... disse o menino, com sua voz carregada de frustração: Que faria se ninguém quisesse comprar nossos livros? Quando sobra do teu leite, papai trás de volta e, se não transforma em manteiga, faz bolos ou vira queijo. Mas, os livros, que faria com eles?
- Eu nunca tinha pensado nisto antes... respondeu a vaca, um tanto abalada.
- Eu bem que poderia vendê-los como calço para algum móvel, mas, até hoje, não vi mais que um único livro servir para este fim.
- Parece-me que tu tens um enorme problema meu amigo. Mas, creio que posso te ajudar.
- Eu sei, eu bem sei que tenho um enorme problema... Que tu pensas que eu deveria fazer com os livros?
- Com os livros? Com eles, nada! Seu problema não são os livros.
- Não são? Como assim “não são os livros”?
- Seu problema não são os livros meu amigo, seu problema chama-se confiaaança... respondeu-lhe a vaca, pronunciando com destaque a palavra confiança.

- Confiança?
- Sim, confiança! Ela é a força que te faz caminhar pela estrada, entre o estábulo e a casa da fazenda, mesmo que seja noite e esteja tudo escuro. E isto tu fazes porque, apesar da dificuldade em caminhar, não duvida de que em breve estarás lá.
- Eu já senti esta força antes! E eu nunca duvidaria que eu pudesse mesmo chegar em casa.
- Isto porque tua confiança venceu sua insegurança... concluiu a vaca.
- Então vivemos sempre como nunca guerra?
- Tu sempre me surpreendes com tuas perguntas...
- E tu sempre me surpreendes com tuas respostas... Mas, diga-me... Se eu for confiante, eu conseguirei vender todos os meus livros?
- Isto só tu podes responder... Venha cá...

A vaca caminhou e parou embaixo de uma sombra...

- Conheço a história de um vendedor de livros. Um dia, colocaram-lhe um desafio: se ele vendesse cem livros por semana durante um ano, ganharia uma bela comissão. Após 12 anos de trabalho, o homem conseguiu vender seus cem livros semanais.
- Um bocado de livros!
- Bem, mas agora responda-me com toda sinceridade que há no teu coração... Se tu precisasses vender cem livros por semana, tu pensas que conseguirias?
- Sei lá... Eu gosto mesmo é de escrever.
- Entendo como te sentes... Então, não alcançarias a marca proposta?
- Com a experiência, acho que venderia muitos... mas... sempre há uma possibilidade de não se conseguir. Assim, creio que não é possível afirmar com certeza se conseguiria.
- Então, se tu querias uma resposta, ela é: tuas chances de fracasso são enormes.
- Mas, por que, se eu disse que venderia muitos?
- Tu pensas como um derrotado...

O menino emudeceu. Sem compreender o que a vaca queria dizer, esperou que ela esclarecesse. Na verdade, sentiu-se um pouco ofendido.

- A maneira como tu pensas é que faz a diferença, meu caro. Outra resposta que não um convicto sim, não serve para alguém que deseja vencer. Em tua mente, tu te consideras incapaz, julgas obstáculos que ainda não existem, confere-lhes força e aceitas desde já a possibilidade do fracasso. Meu amigo, tu não estás seguro de ti mesmo e de tua capacidade de alcançar o teu objetivo.
- Não posso concordar contigo. Como eu afirmaria com certeza que sim?
- E como tu afirmas com certeza que não?

Nesta hora, o menino sentia-se como que em xeque-mate. A vaca sorria contente de que algo novo estivesse por acontecer no coração do seu amigo. E ele, tentou não gaguejar na hora de responder...

- Olha, as coisas na vida real não são tão simples assim. Eu posso te dar o exemplo do meu pai. Ele nem sempre consegue vender todo leite que leva à cidade e tu, já sabes disto. Isto me soa coisa de gente metida...
- Queres dizer, arrogante?
- Que seja...
- Amigo, a humildade leva-nos a reconhecer a derrota, no entanto, admitir a possibilidade de derrota é a fraqueza que leva ao fracasso. A arrogância não está em não admitir a possibilidade de derrota; tampouco, a humildade está em admitir a possibilidade de fracasso.
- Está ficando tudo misturado...
- Olha, deixa-me esclarecer algo. Na verdade, não importa nem um pouquinho se tu conseguirias vender seus cem livros.
- Não? Perguntou o menino ainda mais surpreso.
- Claro que não! Sabe por quê? Porque a vida é assim! Um dia as vendas vão bem, outro dia, mal. Não importa muito que obstáculos tu encontrarás, mas com que disposição tu te colocas perante eles. Quando tu achas que não os vencerás e, não confia que é possível, já perdeu antes mesmo de ter tentado.
- Por quê?
- Por que o teu limite sempre te será desconhecido. Não crer na possibilidade de êxito é o mesmo que se entregar antecipadamente.
- Acho que agora as coisas estão mais claras para mim... Por que não conheceria meu limite?
- Quanta força tu tens?
- Que força?
- Tu não conheces tua força?
- Para carregar uma carroça com leite?
- Pode ser...
- Não muita.
- Então tu nunca carregarias uma carroça com leite?
- Carregarias sim.
- Tu não tens força para isto!
- Mas eu posso usar os carrinhos, e além do mais, aos pouquinhos eu poderia carregá-la.
- Então tu concordas que, apesar de tua pouca força física, a carroça do leite seria carregada por ti?
- Claro!
- Eu chamo isto de preparo.
- Uhm...
- E o que aconteceria se tu olhasse a quantidade do leite e isto te fizesse sentir incapaz?
- Eu acho que não tentaria, ou, se tentasse, não terminaria o serviço.
- E por que não terminaria?
- Eu me sentiria cansado e, indicaria que não poderia mais, assim como eu havia previsto.
- Ou seja, assim como tu achavas que não te seria possível. Percebes? Tu terias a força necessária, mas, a barreira fez-te acreditar que aquele era o teu limite e tu desististe. É por isto que teu limite sempre te seria desconhecido.

- Eu não conheceria meu limite porque teria desistido antes de tê-lo verdadeiramente conhecido... gostei disto.
- Tu entendes agora? Tu tens força para alcançar teu objetivo, mas, quando achas que as barreiras te vencerão, tu te permites acreditar que não terás força suficiente para fazer o que tu poderias fazer. Portanto, sejas humilde em sua realidade, mas guerreiro em sua confiança.
- Agora eu entendo um pouco mais.
- Que ótimo!
- Amiga, prepara-te!
- Por quê?
- Porque amanhã cedo, virei à ordenha e tirarei o maior número de litros de leite que alguém já pôde ter tirado de uma vaca no mundo todo!
- Sabe de uma coisa?
- De quê?
- Agora sim precisarei de um novo médico. Vai com calma meu amigo! Tu não gostarias de usar toda esta energia para escrever? Céus, que fui ensinar a este menino. As demais companheiras me matarão...

Desta vez, o menino ficou imóvel e, a vaca desaparecia no horizonte da campina como um raio.

E para refletir, sugiro:

"Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê" Marcos 9:23
"Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece" Filipenses 4:13
"Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou" Romanos 8:37

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O modelo da criação

Mais um se ano se inicia. Para muitos, este é um tempo de reflexão, correções e novos planos. Para nós, cristãos, são constantes as questões: Como construir algo sob a bênção e orientação de Deus? Como alcançar êxito em nosso projeto? Bem, antes de continuar a leitura deste texto, eu sugiro a leitura do primeiro capítulo do livro de Gênesis. Vamos lá?

Um modelo perfeito

Em Gênesis, está o relato da criação, da construção da terra. Este é o modelo escolhido por Deus para construí-la e tudo o que nela há. O Senhor, em sua sabedoria, seguiu alguns passos na realização do seu projeto, que servem de exemplo para a construção dos nossos. Lembremo-nos de que: “O SENHOR com sabedoria fundou a terra, com inteligência estabeleceu os céus” Provérbios 3:19.

O DESPERTAR DE DEUS (1º DIA)

"Disse Deus: Haja luz, e houve luz.."

Repentinamente, a luz se fez. No transcorrer da vida, de repente, somos pegos de surpresa. O entendimento de algo se acerca de nós, como que raios de luz sobre nossas vidas. Este entendimento traz mudança à mente e ao coração.

A luz é aquilo que o Senhor mostra. É o despertar. Com a luz, há a divisão entre o claro e visível, daquilo que está oculto.

A luz é um pensamento, uma ideia que ilumina a vida e que aquece o coração.

A luz faz enxergar o óbvio que estava oculto.

A luz vem e traz consigo mudanças.

ALIMENTANDO MEUS SONHOS (2º DIA)

Após a luz, o Senhor cria o firmamento. O firmamento é a atmosfera que envolve a terra.

Neste contexto, a atmosfera é o ambiente do qual sou rodeado.

Quando o Senhor nos entrega um projeto e nos ilumina, devemos tomar o cuidado de mantê-lo numa atmosfera, num ambiente adequado. Um bom ambiente gera ânimo, motivação, onde os sonhos são alimentados. Um mau ambiente leva a frustração e a decepção.

Nesta etapa, algo acontece no coração. O desejo do que se quer e o desejo de efetuá-lo começa a ser moldado. A importância do ambiente está em não permitir que a fé seja apagada pelo pessimismo. Por isto, deve-se tomar muito cuidado com aquilo do qual se está rodeado:

- Às vezes, um amigo com menos fé.
- Às vezes, um conselheiro sem visão.

Logo, assim como a atmosfera protege o projeto terra, uma atmosfera é preciso na proteção dos nossos sonhos. E é claro, O Senhor pode transformar ambientes.

ESTABELECENDO A BASE (3º DIA)

“e apareça a porção seca [...] Produza a terra...”

A base é a que sustenta todo projeto. É o lugar onde se edifica. Em se tratando de vida cristã, a base dela é “Jesus Cristo é o Senhor”.

A intenção do coração é a base de um projeto. Toda vez que desejarmos nos mover em alguma direção, devemos nos perguntar: baseados em que queremos isto ou aquilo? Ou seja, quais são as legítimas e verdadeiras intenções que estão dentro do coração.

A base é a plataforma que sustenta toda vida. A base precisa ser fértil.

Uma boa base (intenção), dá boa vida (bons frutos). Uma base má gera frutos maus. Quando a base é boa, ela gera vida facilmente.

Tomando um exemplo comum entre os jovens, muitos estão à procura “da pessoa certa”. Bem, perdoem-me, não existe a tal pessoa certa. O que existe são afinidades. Mais do que a pessoa certa, há a intenção certa. Provérbios 21:2

Da base, da terra, vem o sustento para o homem e aos demais seres. Se esta base for infértil, toda vida perecerá, sinal de que, temos grande responsabilidade ao lançarmos um projeto.

A terra precisa ser cultivada, revista constantemente, para que não perca seu foco, ou seja, as intenções do coração precisam ser tratadas. A vida surge mediante exposição à luz, o entendimento procedente da Palavra de Deus (a relva sobre a plataforma precisa de luz para crescer).

O coração deve ser tratado, pois, não é um lugar de ferida, é um lugar de vida.

ABRA SEU CORAÇÃO AOS CONSELHOS (4º DIA)

O Senhor colocou no firmamento luzeiros para iluminar a terra.

Nossos mentores, familiares e amigos são luzeiros que Deus colocou em nossa atmosfera. Eles nos aconselham, trazem luz, ajudando-nos com conhecimento e sabedoria. Ajudam-nos a saber se é tempo, se podemos avançar ou aguardar. São como as estrelas numa carta náutica que guiam durante a noite, ou a posição do sol durante o dia.

A Palavra é a luz com que nossos luzeiros nos iluminam. Durante à noite (escuridão), somos iluminados por eles e cada um deles possuem sua grandeza específica.

Isto nos ensina que não devemos fazer nada sozinhos, mas envolver outros em nossa atmosfera. Fazer coisas sozinho não é vontade de Deus para o homem. Provérbios 18:1

Existem coisas que somente são alcançadas quando escolhemos dividi-las: um filho por exemplo. Assim, ele nunca seria somente meu. Seria meu e de minha esposa. Também não seria metade de cada um. Um filho é sempre inteiramente do pai e inteiramente da mãe.

A lua e as estrelas nos mostram que mesmo na escuridão, contamos com a ajuda do Senhor nos mostrando a direção.

O SENHOR NOS RODEIA DE VIDA (5º DIA)

Encham-se de vida a terra, os céus e os mares!

A vida que o Senhor cria é disseminada. Isto quer dizer que nossos projetos podem abençoar lugares onde talvez nunca coloquemos os pés, e podem alcançar gerações que talvez nunca vejamos.

O Senhor abençoa todo projeto. Ele gera vida até onde a vista não alcança ou onde os pés não chegam. Quando o projeto é bom, o Senhor prepara seu colorido de vida e graça.

Deus é um Deus criativo e presta atenção nos mínimos detalhes de nossas vidas. Ele as enriquece com detalhes belíssimos, as pequenas coisas da vida, que não podemos desprezá-las.

INCLUINDO AS PESSOAS (6º DIA)

Deus incluiu o homem nos seus planos. Isto significa que devemos incluí-los também nos nossos. Quando planejamos, devemos ter a intenção de abençoar pessoas.

A intenção é a base. Tudo o que o Senhor fez foi visando incluir o homem no seu projeto. Depois de tudo feito, Deus entregou todo o projeto à administração humana.


CONCLUA BEM (7* DIA)

Em certa ocasião, ouvi um pastor afirmar: “Só pode descansar aquele que concluiu”.

O Senhor concluiu sua obra, por isto descansou. É um descanso interior, no espírito, a noção de que alcançamos aquilo que o Senhor nos despertou a efetuar

PALAVRINHA FINAL

Quando executamos um projeto, a cada fase, precisamos analisar se o que fazemos é bom. Este foi o controle de Deus. Precisamos ter prazer nisto.

Deus dividiu seu projeto em etapas, realizando um pouco a cada dia. Toda vez que fazemos um pouco a cada dia, alcançamos muito. Não devemos atropelar etapas, pois, não somos melhores que Deus.

"O SENHOR me possuiu (a Sabedoria) no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas" Provérbios 8:22. Escrito em 2008.

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Cocô ou esterco? Uma lição bovina

Final de tarde, um vento de primavera soprava na campanha... Eles encontravam-se no pasto....

- Olá! Como estás meu amigo?

- Eu estou bem, mas...

- Mas o quê? Que significa este mas?

- É o meu pai... Está um pouco triste.

- Uhm... Qual é o motivo? Diga-me logo!

- Ele e minha mãe conversavam algo sobre um dos empregados da fazenda.

- Ele está doente? Algum problema na família?

- Não, não. Parece-me que o homem pediu para deixar o serviço.

- E tu sabes por quê?

- Bem, pelo que entendi, o homem reconheceu que há algum tempo relaxa nas atividades e faz as coisas de qualquer maneira.

- Entendo! Este é mais um caso de alguém entre o cocô e o esterco...

O menino esboçou um sorriso e coçou a cabeça:

- Entre o cocô e o esterco? Que quer dizer isto?

- Quer saber mesmo?

- Sou todo ouvidos!

- Percebes quais as opções que o pobre homem se coloca?

- Eu acho que é deixar o serviço ou continuar a fazer as coisas de qualquer maneira.

- Bingo!

- Acertei?

- Sim, tu acertaste. Mas agora me responda: Qual o mérito da escolha?

- Uma escolha precisa ter mérito?

- Ai, ai, ai... Eu perguntei primeiro menino!

- Desculpa!

- Tudo bem, eu só estava brincando contigo.

- É... agora não sei se espero tua resposta ou se te respondo a pergunta cara amiga.

- Deixe-me responder então a tua primeiro. Bem... uma vez que nossas decisões e escolhas são caminhos que nos levam sempre a algum lugar na vida, creio que elas devem ter algum mérito sim. Aliás, escolhas falam muito acerca de nosso caráter.

- Acho que agora entendo... Bem, eu acho que há mérito em deixar o serviço.

- Por que tu achas isto?

- Porque é melhor não atrapalhar que trabalhar de qualquer jeito.

- Parabéns! E isto com que ficaste é o cocô ou o esterco?

- Não entendo...

- Então, diga-me: Qual preferes, o cocô ou o esterco?

- Nenhum deles.

- Não, não. Estas são as opções que tu mesmo te colocaste. Sendo assim, precisas escolher uma delas.

- Ah... sei lá, parece-me que dá no mesmo.

- Bingo!

- Acertei?

- Acertaste na mosca!

- Então explica-me!

- Ambas as decisões são autênticos atestados de indisposição, incompetência e mediocridade.

- Seja mais clara, por favor.

- Ora, tu achas uma sábia decisão abandonar um serviço por se comportar de forma incompetente, seja qual for a razão para tal?

- Continuo achando que é melhor deixar que atrapalhar.

- Sinto cheiro de estrume no ar...

- Está bem, então, qual é sua explicação, oras?

- Que tu acharias de escolher se tornar melhor?

- Uau, acho que agora entendi! As duas opções na cabeça dele são péssimas...

- É claro meu amigo! Há daqueles que escolhem permanecer medíocres a mudar sua atitude.

- Então, entre deixar de servir ou fazer as coisas de qualquer maneira, seria mais sábio escolher fazer as coisas da melhor maneira, sem nunca deixar de servir...

- Sim, eu acho que estas são condições mais razoáveis a se apresentar. Sem esta mentalidade, dificilmente aquele homem crescerá em sua vida.

- Entendo... mas tenho outra pergunta.

- Estou pronta.

- Que culpa ele tem se sua incompetência for um reflexo de sua falta de talento? Nem todo mundo sabe fazer de tudo, ou gosta de fazer tudo. Às vezes, as pessoas descobrem que não servem para determinadas funções ou tarefas.

- É verdade. No entanto, um homem de caráter nobre não abandona um compromisso sem ter dado o melhor de si em executá-lo, ou o melhor de si em aprendê-lo.

O menino beijou a vaca e disse:

- Os motivos pelos quais decidimos o que decidimos, refletem a grandeza ou a pequenez de nossos corações.

- Que lindo isto menino!

- Obrigado! Olha... preciso ir agora.

- Tão cedo?

- Acho que tenho desculpas a pedir.

- Desculpas? Que andaste aprontando?

- Faltei à escola ontem. Eu disse a minha mãe que estava com dor de barriga, mas, na verdade, era porque não fiz a tarefa de matemática. Acho que me faltou um pouco de vontade de aprender.

- Uhm...

- Uhm, o quê?

- Sinto perfume de flores no ar...

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